segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Reynaldo Gianecchini ilustra capa da BT Experiencie

Reynaldo Gianecchini ilustra a capa da atual edição da revista BT Experience, que também traz entrevista com um dos mais talentosos e queridos atores de sua geração. No ensaio, fotografado por Maurício Nahas, Gianecchini encarna o jogador de basquete. A escolha do tema se refere ao esporte, que esperava-se, fosse sua carreira. Em paz com suas escolhas, foi o próprio ator que escolheu o tema, apresentando, assim, uma faceta importante do seu passado.


Confira, abaixo, a entrevista


ELE TEM A FORÇA
Com um sorriso delicioso, energia e determinação, o ator Reynaldo Gianecchini realiza movimentos certeiros na quadra, na profissão e na vida pessoal. Essa atitude firme e otimista em todos os momentos é que o impulsiona a cada dia e só aumenta sua lista de admiradores.


 - Por Adriana Marmo fotos Maurício Nahaser

Reynaldo Gianecchini chegou todo animado ao estúdio para as fotos desta edição. Havia uma motivação maior, algo além de mais um ensaio em sua carreira. Enquanto escolhia as roupas com os produtores, o ator propunha com entusiasmo ao fotógrafo como poderiam ser alguns dos cliques, que seriam feitos minutos mais tarde em uma quadra de basquete no bairro do Sumaré, em São Paulo. E lá foi ele sugerindo lances, todos sensacionais, enquanto demonstrava com o corpo como poderia ser a pose que faria: “Pensei em um salto enterrando a bola. Quem sabe outra pendurado na cesta? Também acho legal a ideia de correr batendo a bola. O que você acha?”.

Para Giane, como é chamado pelos amigos, encarnar um jogador de basquete é o mesmo que fazer as pazes com o menino de 12 anos que um dia, durante uma festa de família em Birigui, sua cidade natal de pouco mais de 90 mil habitantes no interior de São Paulo, trancou-se no banheiro e chorou copiosamente. O sentimento do garoto naquele momento era um misto de culpa e profunda tristeza por acreditar que estava decepcionando pais, irmãos, tios, primos e avós.

O garoto tímido sentia que estava quebrando a tradição familiar do basquete. Afinal, o pai foi um jogador profissional e o tio, Fausto Gianecchini, chegou a representar a Seleção Brasileira da modalidade durante 12 anos. Além disso, vários primos ganham a vida fazendo cestas de maneira profissional. “Embora gostasse de basquete e de esportes, eu sempre quis outra coisa para a minha vida. O basquete não estava em meus planos”, lembra ele. “A família brincava que eu deveria seguir os mesmos passos. Meus pais sempre foram muito liberais, mas mesmo assim me cobravam e eu sofria com isso.”

E como a vida é generosa e dá voltas, ele não teve dúvidas em sugerir o tema do ensaio e conseguir finalmente ficar em paz com aquele menino. “Minha família vai amar ver esta revista”, disse ele, animado. E foi saindo daquele banheiro na pré-adolescência, com a ponta do nariz vermelho e os olhos inchados, que talvez o ator tenha entrado em contato com dois sentimentos que fazem parte do seu dia a dia desde sempre: força e coragem. Sentimentos com os quais precisou contar com veemência em vários momentos da sua vida. “Viver é uma grande aventura e, para encarar os desafios cotidianos, a gente precisa ir lá para dentro da gente”, diz ele. “A vida pede coragem para lutar e força para bancar as nossas decisões e os caminhos que a gente escolhe.”

A tal dupla foi colocada à prova em vários momentos, pois, como ele diz, não foi fácil para um garoto do interior deixar a casa dos pais, ir para a cidade grande e, depois, tentar a vida fora do país. “Quando fui morar em Paris para ser modelo, não contava com dinheiro nem ajuda de ninguém. Fui na raça”, lembra ele. “Não é fácil desbravar todos os medos para conquistar o mundo.” O caminho de volta também não foi tão suave assim. Trocou a profissão de modelo pela de ator e teve de segurar firme a barra de começar como protagonista de uma novela em horário nobre. Belo, mas ainda um ator em formação. “Vivo para vencer meus medos. Prefiro errar a não fazer. E a vida é assim mesmo, um intercalar de sucessos e fracassos. Aliás, o fracasso é o que mais nos ensina”, diz ele com seu sorriso perfeito.

Prova de fogo
O momento em que a força de Gianecchini passou pelos testes mais duros foi durante o telefonema com o médico David Uip, em junho de 2011. Ele vivia com um incômodo que imaginava ser algo como faringite, laringite ou uma virose. Fez alguns exames, mas, enquanto aguardava os resultados, um dia acordou com “duas laranjas” no pescoço. Ligou para o médico e a resposta fez o estômago congelar: “Os resultados dos exames acabaram de chegar. Você tem um câncer e precisa vir para o hospital”.

Foi um baque, claro, mas imediatamente Giane conta que entrou em contato consigo mesmo e achou aquela força. “Quando a vida te coloca frente a situações extremas, o único caminho possível é ir para dentro de você mesmo. Essa é uma estrada solitária, por mais amor e pessoas em volta, é você sozinho”, diz ele. “Ninguém evolui nesta vida se não passar por essa solidão.”

Com voz serena e sorriso largo, Gianecchini gosta de enumerar as belezas que descobriu naqueles momentos de dor. “A primeira delas é que você entende que consegue superar e que as coisas mais simples da vida são realmente as mais importantes”, afirma. No meio do turbilhão que foi o tratamento, o ator ainda teve de lidar com a morte do pai, que, vítima de um câncer no pâncreas e fígado, deu o último suspiro nos braços do filho.

Segundo Giane, o que poderia parecer uma tragédia foi um dos momentos mais bonitos de sua vida. “Foi sereno e sei que meu pai e eu aprendemos muito com essa passagem”, lembra. “Foram dias de alegria, nos quais eu aprendi a viver o aqui e o agora, estar conectado com o presente.” A lição mais importante, diz ele, foi livrar-se de tudo que é desnecessário, pensamentos ruins ou maus sentimentos, e focar no que é bom, no amor e no presente. “Quando você está pleno disso, nada mais te derruba.”

Embora tivesse sempre a certeza de que a sua hora não tinha chegado, a proximidade com a morte trouxe serenidade. “Você a aceita, sabe que ela existe e, assim, passa a viver o presente”, diz ele. Para conseguir o equilíbrio, o ator medita todas as manhãs, sem seguir uma linha específica. É o que ele chama de espiritualidade. “Quando acordo, faço respirações profundas, medito, me conecto com a energia do dia. Penso em coisas boas e no que eu quero que aconteça nas próximas horas.”

Vivendo o presente
Essa busca pelo equilíbrio não significa que o ator tenha virado uma espécie de monge zen, um leão da montanha. Não, ao contrário, continua a ter doses de estresse, passa por raiva e sentimentos nem tão positivos assim, mas que fazem parte da rotina de qualquer mortal. A diferença, segundo ele, é que o tempo de recuperação é bem mais rápido. “Não fico parado nessa vibração por muito tempo”, diz ele

Manter essa conexão forte com o Universo, ter paz e viver o aqui e agora, segundo Giane, requer também músculos fortes e pulmões em plena capacidade de receber a maior quantidade possível de oxigênio. “Meu corpo precisa responder, tenho essa necessidade desde criança, pois vim de uma família de esportistas”, explica. Não à toa, ele diz que a BT é a sua segunda casa. Lá pratica suas séries de musculação, faz aulas de pilates e solta os músculos com muitas braçadas na piscina. Mas não esconde a sua atual paixão: as aulas de crossfit. “Estou viciado. Além de ser um treino bem difícil, exige grande trabalho mental, mas o mais bacana é que é absolutamente divertido e dinâmico.”

Ele tenta ir à academia o maior número de dias por semana e o que mais gosta é poder fazer todas as modalidades no mesmo lugar. Quando viaja, tem uma mania: conhecer academias. “É um jeito diferente de ver como as pessoas vivem. As pessoas que frequentam academia, em geral, estão preocupadas em ficar bem. E essas pessoas estão aptas a cuidar dos outros, a trocar mais. O exercício traz um bem-estar que não dá para viver sem.”


Prazer total

E, para quem pensa que em tanta vida conectada não há lugar para os prazeres terrenos, Giane vai logo dizendo: eles fazem parte da vida, sim! E sem culpa! “Há muito tempo descobri que buscar a espiritualidade não significa abandonar a matéria. Os radicalismos não servem a nada.” A relação com o dinheiro, ele define de maneira curiosa. “Já passei muito tempo da vida sem grana. É chato, é difícil porque você fica sem opções.” Entre as alternativas que mais aprecia estão as viagens. Durante o trajeto até a quadra de basquete, foi fazendo planos das próximas partidas. Quem sabe a Tailândia e o sudeste asiático. Talvez o Canadá, o Marrocos, uma viagem com a família. Planos para um futuro próximo.

Ele não esconde quanto gosta de roupas, aprendeu isso nos tempos em que era modelo. Aprecia tudo que é confortável. Tênis, calças folgadas, tecidos macios, camisetas e jaquetas esportivas são maioria no seu dia a dia. Nas noites de festa, camisas bem cortadas e blazer ficam entre as escolhas preferidas. “Roupas são uma forma de expressão.”

A descoberta dos fios grisalhos e o sucesso que eles estão fazendo surpreenderam o ator, que passou a usar um xampu especial para manter os brancos com um toque de prata. Mas sem apego. Por conta de um trabalho no cinema, a cor sedutora vai dar lugar a outro tom. Mas lembrando que o natural pode voltar a dar o ar da graça! Preocupado com os efeitos nocivos do sol, não sai de casa sem protetor.

Giane adora comer bem, de maneira saudável. Seleciona alimentos orgânicos, sem glúten, sem açúcar. Tanto que abriu um restaurante no Rio de Janeiro, o Pomar Orgânico, com a amiga Giovanna Antonelli. “É o lugar onde eu gostaria de fazer as refeições todos os dias”, diz ele, e não esconde que, nos dias em que bate a vontade, consome tudo que procura evitar! É assim a vida em equilíbrio!

Gianecchini vive um momento de pura paixão com o escritor japonês Hakuri Murakami, de quem está lendo Kafta à Beira-Mar e já pretende engatar em outras duas indicações. Ele, que pode ouvir música sertaneja com a maior naturalidade quando está em Birigui ou cair no samba ou na música eletrônica sem solavancos, conta que está vivendo seu momento mergulho no jazz. John Coltrane e Miles Davis estão entre os mais ouvidos. Além de gostar do som, a música tem relação direta com o próximo trabalho do ator no cinema. Mas esse ainda é segredo!